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De onde surgiu tudo isso?

O Preconceito Linguístico já existe há muitos e muitos anos, mas somente há pouco tempo algumas pessoas se uniram pra comprovar que ele não tem fundamento algum... E como começou toda essa história? Vamos descobrir agora...

Linguística

A Linguística é uma ciência que existe há muito tempo, mas antigamente tinha como objetivo estudar textos antigos e a história das línguas. Isso mudou quando as ideias de Ferdinand de Saussure, um professor da Suíça, foram publicadas em um livro chamado Curso de Linguística Geral. A partir daí, o foco da Linguística passou a ser a língua e as diversas questões que podem estar relacionadas a ela. Por isso, dizemos que a Linguística é a ciência que estuda a língua.

No livro Curso de Linguística Geral, que foi publicado em 1916, o professor Saussure já dizia que todos aqueles que se dedicassem a estudar Linguística deveriam se preocupar em acabar com os pensamentos preconceituosos e errados das pessoas sobre a língua. Ainda assim, muito tempo se passou até que alguns estudiosos resolvessem levar isso a sério e realmente desconstruir certas ideias sobre certo e errado na língua, maneiras de falar melhores ou piores, línguas ricas e pobres... E foi aí que nasceu a sociolinguística.

Sociolinguística

A sociolinguística faz parte de uma ciência, a Linguística, e se dedica aos estudos da língua em seu uso real. Isso quer dizer que os estudiosos dessa ciência estão preocupados em entender e explicar tudo o que falamos, seja algo considerado certo ou errado pela sociedade em geral. Na sociolinguística, entendemos que não existe isso de correto e incorreto na língua, pois todas as formas de falar são dignas de serem estudadas e todas têm o mesmo valor pra língua que falamos. A sociolinguística leva em consideração para seus estudos os fatores sociais e culturais das pessoas que falam de determinada maneira, entendendo que esses fatores também influenciam no modo de falar. Essa área de estudos surgiu nos Estados Unidos na década de 1960 e o primeiro sociolinguista a se tornar conhecido foi um estudioso chamado William Labov. Ele realizou estudos que mostraram a diferença entre a fala de grupos de pessoas de classes sociais diferentes, comprovando que existe o que chamamos de variação linguística.

Variação Linguística

A variação linguística nada mais é do que as diferenças que encontramos na fala das pessoas de lugares, grupos sociais ou ainda idades diferentes. Você já deve ter percebido que, apesar de todos falarmos a mesma língua (que aqui vamos chamar de Português Brasileiro), as pessoas sempre se diferenciam por alguma coisa na fala. Seja uma palavra diferente, ou um sotaque ou ainda frases construídas de dois ou mais modos distintos, que variam de acordo com quem fala.

Por exemplo, podemos ver um caso muito claro de variação que acontece em nossa língua: o uso do a gente e o uso do nós. Falamos tanto um quanto o outro todos os dias. Algumas pessoas (normalmente os mais jovens) usam mais a gente, enquanto outras usam mais nós, que antigamente era a forma mais falada. Repara só nessas frases:

- A gente vai sair hoje.

- Nós vamos sair hoje.

Qual a diferença entre as duas? Você entende duas coisas diferentes ou a mesma coisa em ambas? A mesma coisa, claro! Então por que às vezes usamos a gente e às vezes usamos nós? Lembra que a sociolinguística usa questões sociais e culturais pra estudar as maneiras de falar? Então... nesse caso, vários fatores influenciam o uso de um ou de outro. Situações mais formais geralmente pedem o uso do nós, situações entre amigos e colegas, o uso do a gente. Isso acontece em todas as línguas! Todas têm variação. Isso já foi comprovado pela sociolinguística e só enriquece a língua, pois ela não é algo estático, que nunca muda, muito pelo contrário: a língua é viva e muda com o tempo, como tudo no mundo.

Mudança Linguística

Se olharmos textos e livros antigos ou até mesmo filmes e novelas de anos atrás, e compararmos com materiais dos dias de hoje, perceberemos que muita coisa mudou na maneira como as pessoas falavam. Podemos usar como exemplo a palavra você.

Antigamente, essa palavra não existia, e no seu lugar era usada a expressão vossa mercê, que substituía o pronome tu em situações mais formais (sabe o tu da conjugação verbal? Então, esse mesmo!). Conforme as pessoas foram falando e falando, a palavra foi sendo encurtada, se transformando em vosmecê. Muitos e muitos anos depois, conforme as pessoas iam mudando, o tempo passando e a fala acontecendo, chegamos ao que hoje falamos: você. Isso é o que chamamos de mudança linguística. E não para por aí! Se prestarmos bastante atenção, veremos que muitas pessoas já fazem uso do em lugar do você. Isso já é um sinal de que pode vir uma nova mudança por aí... Por enquanto, como os dois usos são comuns, ainda chamamos de um caso de variação.

Voltando aos usos do a gente e do nós, entendemos que esse é um caso de variação que pode ou não se tornar mudança mais pra frente, caso o uso do a gente supere o do nós. Mas, se isso for mesmo acontecer, ainda vai levar alguma tempo, pois as mudanças linguísticas são demoradas e não acontecem de uma hora pra outra.

E o que tudo isso tem a ver com preconceito linguístico? Vamos ver agora!

Variedades Estigmatizadas e Variedades Prestigiadas

Você já sabe o que é variação, certo? É quando duas ou mais maneiras de falar algumas coisas são usadas pelas pessoas. A cada uma dessas maneiras de falar, nós podemos dar o nome de variedade linguística. Pois bem, agora vamos voltar ao nosso exemplo do a gente e do nós? Nesse caso, temos duas opções de uso, e as duas são faladas pelas pessoas, sendo ambas consideradas corretas e utilizadas pelos falantes do Português Brasileiro. Mas existem casos de variação em que isso não acontece tão tranquilamente assim... Vamos ver esses exemplos:

- Hoje fiz menos coisas do que ontem.

- Hoje fiz menas coisas do que ontem.

Na primeira frase, usamos o menos, e na segunda, o menas, cada palavra pertencendo a uma variedade diferente. Mas o sentido da frase mudou? Claro que não! Tanto menos quanto menas podem ser usados na frase, já que todo mundo consegue entender em qualquer um dos casos. Mas sabemos que nem todo mundo usa o menas, e alguns ainda dizem que está errado... Por que isso?

Algumas variedades são prestigiadas e outras estigmatizadas. Isso quer dizer que algumas maneiras de falar são consideradas bonitas, certas e melhores (prestigiadas) e outras são consideradas feias, erradas e piores (estigmatizadas). Mas pera lá! Nós não acabamos de ver que todas as variedades são válidas e têm regra e lógica? Não acabamos de dizer aqui que a sociolinguística já comprovou que as variedades não podem ser classificadas como certas e erradas ou melhores e piores? Então que história é essa de estigmatizar e prestigiar?

Na nossa sociedade, temos a mania muito feia de julgar coisas e pessoas sem saber nada sobre elas. A esse julgamento sem qualquer conhecimento, damos o nome de preconceito. O que faz com que o uso da palavra menas seja estigmatizado e o do menos, prestigiado, é exatamente isso: o preconceito, que nesse caso, é linguístico.

Clique aqui para ler mais sobre o Preconceito Linguístico

Esse preconceito, assim como qualquer outro, é errado e deve ser levado a sério, desconstruído e combatido! Se já sabemos que todas as variedades linguísticas são corretas, não faz sentido manter esse pensamento de que algumas são melhores do que outras, não é?

Cada maneira de falar é diferente, mas nenhuma é pior do que outra do ponto de vista linguístico. O que infelizmente acontece é que as pessoas misturam tudo! Julgam a fala dos outros por questões sociais e culturais, e não porque tem algo de errado com o que a pessoa está falando. Na verdade, tudo tem regra. Até o menas, que é tão desprezado.

Clique aqui para conhecer a regra de uso do menas.

Concluímos então, que: se tem regra, está certo. Se está certo e alguém diz que é errado, é preconceito. E se é preconceito, vamos combater!

Quer saber mais ainda sobre o assunto? Aqui vai uma lista de livros muito bons sobre o tema, além de indicações de artigos e outros textos que falam sobre Preconceito Linguístico. Ah, temos também professores e associações que fazem trabalhos e pesquisas sobre isso, visite os seus sites pra conhecer mais!

Pelo Fim do Preconceito Linguístico

Para conhecer ainda mais opções de livros sobre o assunto, visite os sites das editoras Parábola e Contexto.

Artigos e textos:

http://revistagalileu.globo.com/Revista/Common/0,,EMI110515-17774,00-O+PRECONCEITO+LINGUISTICO+DEVERIA+SER+CRIME.html

http://cienciahoje.uol.com.br/colunas/palavreado/preconceito-linguistico

http://www.unicamp.br/iel/site/alunos/publicacoes/textos/p00003.htm

http://portalrevistas.ucb.br/index.php/RL/article/viewFile/3976/2438

http://aplicacao.tst.jus.br/dspace/bitstream/handle/1939/25796/2010_silva_maria_fatima_barros.pdf?sequence=1

http://www.letras.ufscar.br/linguasagem/edicao03/reportagem_lourenco.php

http://www.educacaopublica.rj.gov.br/biblioteca/portugues/0061.html

http://www.pgletras.uerj.br/linguistica/textos/livro06/LTAA06_a14.pdf

http://www.pgletras.uerj.br/linguistica/textos/livro07/LTAA7_a24.pdf

Sites:

Professor Marcos Bagno - http://marcosbagno.org/

Professora Stella Maris Bortoni - http://www.stellabortoni.com.br/

GEL (Grupo de Estudos Linguísticos de SP) - http://www.gel.org.br/

ANPOLL (Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Letras e Linguística) - http://anpoll.org.br/portal/

ABRALIN (Associação Brasileira de Linguística) - http://www.abralin.org/site/

Projeto VARPORT - Análise Contrastiva de Variedades do Português (UFRJ)

Projeto NURC-RJ - Norma Urbana Oral Culta do Rio de Janeiro (UFRJ)

Projeto PHPB - Para uma História do Português Brasileiro (UFRJ)